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Asunto:[portugues_alc] BRASIL: CEBs dizem que atual modelo é intolerável e pe dem transparência na política
Fecha:Lunes, 25 de Julio, 2005  10:56:21 (-0500)
Autor: ALC <director @...........org>

SERVIÇO DE NOTÍCIAS ALC
Corréio-e:  director@alcnoticias.org

BRASIL
CEBs dizem que atual modelo é intolerável e pedem transparência na política

IPATINGA, jul 25 (alc). Em Carta ao Povo de Deus, as Comunidades Eclesiais 
de Base (CEBs) pedem o restabelecimento da transparência e da ética na 
esfera política e social, e o urgente esclarecimento da corrupção constatada 
neste governo federal e nos anteriores, com a punição dos responsáveis.

Embora não faça qualquer menção ao governo do presidente Luiz Inácio Lula da 
Silva, que no início contou com a admiração e o suporte de movimentos 
sociais e populares, a Carta ao Povo de Deus alega que "o atual modelo 
econômico é intolerável", pois subordina o país ao capital financeiro e 
desestrutura a sociedade.

O documento emitido pelo 11. Intereclesial reafirma o compromisso das CEBs 
com a transformação do Brasil e o apoio "ao projeto que sonhamos para o 
nosso país, projeto que ajudamos a construir e destinado a incluir tantos 
irmãos e irmãs, sem vez e sem voz".

O 11. Intereclesial reuniu de 19 a 23 de julho, na cidade mineira de 
Ipatinga, localizada no Vale do Aço, a 210 Km da capital Belo Horizonte, 
3.806 participantes, dos quais 3.219 delegados de CEBs, 70 delegados 
latino-americanos e caribenhos, 50 evangélicos e representantes de 32 povos 
indígenas. Eles estudaram o tema "Espiritualidade libertadora", sob o lema 
"Seguir Jesus Cristo no compromisso com os excluídos".

Essa "rede de esperança num mundo de justiça e num Brasil melhor" mostra que 
as CEBs "estão vivas, atuantes e fortes", disse Frei Betto em entrevista ao 
padre Geraldo Martins. Historicamente, as CEBs têm sido "uma sementeira de 
lideranças populares", também na política, lembrou o dominicano.

Frei Betto alertou, contudo, que as CEBs não são um partido político, que 
elas "não podem se partidarizar", mas devem continuar na dinâmica da leitura 
bíblica, "sempre comparando o fato da Bíblia com o fato da vida, utilizando 
na sua atuação pedagógica o método de Paulo Freire, e aprofundando essa fé 
libertadora".

Na entrevista, Betto declarou-se um privilegiado por ter participado de 
todos os Intereclesiais. Ele frisou que, como cristãos, "jamais devemos 
desanimar, jamais devemos nos deixar impressionar pelos momentos difíceis da 
conjuntura, como hoje o Brasil enfrenta. Devemos sempre confiar que haverá, 
segundo a ressurreição de Cristo, a vitória da vida sobre a morte, da 
justiça sobre a injustiça, da libertação sobre a opressão".

A Carta das CEBs percebe que "a espiritualidade de Jesus, vivida nas 
primeiras comunidades, tem muita proximidade com a experiência de Deus que 
anima as comunidades afro-brasileiras e os povos indígenas".

Sob a análise do método "ver, julgar, agir, celebrar", a socióloga e 
professora de Sociologia da Religião, Solange Rodrigues, trabalhou no 11. 
Intereclesial o tema "Afrodescendentes". Ela destacou o preconceito que 
existe em torno das religiões e costumes africanos.

"Temos em mente que as religiões afro-brasileiras são demoníacas. Esta é uma 
visão absolutamente equivocada, pois elas fazem parte de toda uma história 
cultural", disse.

Rodrigues lembrou, também, a presença marcante do corpo nas religiões afro. 
Por isso elas têm muita dança, comunicação do corpo. "É na roda que se faz a 
experiência da diversidade. É por isso que a maioria dessas religiões 
celebram em círculos formados por seus integrantes", apontou.

Ipatinga, palavra extraída do linguajar tupi-gurani, significa "pouso de 
água limpa". A relação dos indígenas com a natureza, a solidariedade, a 
partilha e a religião desses povos ligada profundamente a todos os momentos 
da vida foram destacados na análise de "Jesus e as espiritualidades 
indígenas". Os representantes dos 32 povos indígenas presentes no 11. 
Intereclesial clamaram por terra, saúde e o fim do preconceito.

"Acreditamos na vocação profética das CEBs, contribuindo para que a Igreja 
em suas estruturas se torne mais circular, colegiada, acolhedora, inclusiva 
nas suas relações de gênero", assinala a Carta ao Povo de Deus.

Ao participar de entrevista coletiva no Intereclesial, a irmã Julieta Amaral 
destacou que as mulheres estão presentes em 80% da vida das comunidades, mas 
que elas ainda estão longe de se sentirem realizadas. "Queremos participar 
da plenitude dos ministérios da Igreja. Não queremos assumir do jeito que 
está, queremos mudar o jeito de ser Igreja, uma Igreja descentralizada", 
definiu.

Outro participante da coletiva de imprensa, o bispo anglicano Almir dos 
Santos, disse que as CEBs "nos dão um exemplo e incentivam o Conselho 
Nacional de Igrejas Cristãs do Brasil (Conic) para a caminhada pelo social e 
político. Elas são um exemplo da capacidade de mobilização do povo".

As CEBs surgiram nos anos 60 do século passado com a proposta de uma 
experiência cristã integral, voltada ao povo humilde, pobre, marginalizado, 
que estuda a palavra de Deus e se organiza para transformar a sociedade. 
Estima-se que existam, hoje, em torno de 100 mil CEBs no Brasil.

Sob os tambores de Minas Gerais e num ambiente iluminado pelas velas que 
cada participante carregava, as CEBs pediram perdão pela exclusão social. "A 
glória de Deus na América Latina é a vida do pobre", proclamou o animador da 
celebração, reportando-se à memória do bispo mártir de El Salvador, dom 
Oscar Romero.
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